Filed under: Uncategorized
Cicuta
Eu te peço
que destranque logo essas suas costelas
abra agora as portas de sua caixa torácica
liberta a metafísica escondida
dentre esse amontoado de vísceras
Pois seus sorrisos te doem o rosto
e estragam meus retratos
me deixa fotografar agora seu espirro
que com certeza, é muito mais vivo
por ser para você, confuso e desconcertante
Acredito de verdade que para ideias existirem
requer força bruta, trabalho braçal
e para a existência da poesia,
apenas descanso, necessita o puro desleixo
Mas para segurar a poesia sim,
deve haver a mais bruta força bruta
para conseguir mantê-la ali
sufocada na sua carne
e por isso você já é tão forte
quanto um elefante de prata
Por isso eu te peço
cospe logo essa bola de sangue
para seus cães famintos
por coração
e todas essas metafísicas bobas
encherem seus pratos
em um belo banquete vermelho
pois só dessa forma
nós conseguimos dilacerar os nossos bicos
e aí voltaremos a fotografar seus sorrisos leves
de vida e luz
Filed under: Uncategorized
Por Onde Anda o Meu Cachorro de Plástico?
Foi ainda quando criança que percebi
Que em si, nada possui valor algum.
Se algo tem valor,
Apenas o tem por causa de terceiros
Que conferem importância às coisas
ou pessoas.
E numa cadeia que às vezes se faz bonita
Os valorizados valorizam outros valorizados.
É engraçado como sua mão direita,
Encaixa-se perfeita na mão esquerda de um outro.
O desvalorizado por sua vez
É obrigado a ser seu próprio valorizador
Mas nossa mão direita não é muito boa
Para apertar nossa própria mão esquerda, é estranho…
Foi ainda quando criança que percebi
Também
Que a valoração pode ser um ato volitivo
Foi quando mergulhei em uma cachoeira
E lá do fundo, busquei meu diamante.
Chame meu diamante de cascalho, eu não me importo
Isso não faz dele menos diamante
E eu andava com ele para todos os lados,
Os adultos riam, mas outras crianças reconheciam
E invejavam a pedra que eu mesmo busquei debaixo d’água
Minha segunda preciosidade
Que passou a existir devido a um ato de vontade
Foi um cachorro de brinquedo,
Menor que meu dedo, ele veio dentro de um ovo de páscoa
Digo que é um ato volitivo porque eu decidi fazer dele
Um amigo precioso,
Não foi devido a um encanto, nem poderia ter sido
Era um cachorrinho de plástico sem graça
E foi por entender seu desvalor que o escolhi
E comprovei minha tese:
Tudo que existe pode ser precioso
Se assim eu desejar
Mas quando nós crescemos ficamos burros
E buscamos tesouros escondidos
Escondidos por piratas que nem conhecemos
Sem percebermos que o que está guardado no baú
É tão precioso quanto o barco, o mapa, a areia
E os diamantes brutos que se escondem
Dentro de qualquer cascalho.
Filed under: Uncategorized
Frases que não se Aguentam Mais
Por todos esses anos
Eu quis dizer “por todos esses anos”
Com olhos no passado, sem pingo de saudosismo
talvez o contrário disso.
E livremente assim, desfazer-me de técnicas
Aquelas primitivas técnicas que se levam a sério mas
não deveriam,
por serem humanas demais.
Meu cachorro não morde
Mas também não sabe seu nome, nem o nome de ninguém
E isso pode machucar mais que seus dentes
Que são sujos
E eu não ligo, braços cruzados e sorrindo
Meu cachorro sabe o que faz.
Você leva os meus sentimentos a sério
Eu levo a sério a minha técnica e teoria
Mas um cheiro qualquer me faria correr como formiga
O que dizer então das suas paixões que por excelência
são formigas perdidas embaixo de um sapato?
Não deveria pedir mais nada pois
consegui hoje, o que peço há anos
e sou o mesmo pedinte alheio ao que desejo.
E eu vejo isso tudo
depois de todos esses anos…
Por todos esse anos
Tropeçando no mesmo escuro
Que qualquer olho sensato poderia ver
Mas eu corro de olhos fechados
sem vontade de parar
Pois assim vejo distante o ocaso…
Mas como sempre
o acaso que irá se manifestar,
triste,
em qualquer mesa de bar.
-
Filed under: Uncategorized
Para Conquistar Sofia
Encontra meu carinho nas paredes da casa
Não sei se é de propósito
mas ela faz óbvia sua auto-suficiência
E eu a detesto.
Não sei como consegue olhar
Dessa maneira as estrelas paradas
Alcança o firmamento escuro da noite
E pisa contente sem saber
Que eu a admiro profundamente.
Ela é tão linda que me confunde
É tão branca que parece congelada
Com seus pés descalços na minha vida monótona
Ela não precisa de ninguém.
Me observa com uma curiosidade fria
E demonstra cuidado cirúrgico
Na sua ciência
Que me estuda as emoções frágeis
Tão bobo e pesado nesse chão convencional!
Ela chega perto quando chego em casa
De um jeito que me faz pensar ser necessário
E fazer parte do seu mundo tão melhor
Assim, eu a abraço
me agasalho no seu calor egoísta
A sorrir entre espirros.
É um demônio tão doce
E eu a alimento por fazer questão
Do seu jeito de andar traiçoeiramente
feminino
e felino.
Oh, minha gata vira-lata
Minha linda que acharia graça
Ao saber que a considero minha.
Filed under: Uncategorized
Espetáculo Ao Avesso
Seus olhos verdes petrificados eram duas esmeraldas
Que sordidamente roubei quando fazia meu teatro
Olhos grandes afogados, como estivesse encantada
eu assim a deixei por um segundo.
Não me entenda mal,
Frente a beleza real, o absurdo do sublime
que transforma os cinzas naquelas cores oníricas
que eu nem sei o nome,
frente àquele par de esmeraldas
eu fico confuso e não mais diferencio
o público dos personagens,
os lados do espetáculo
nem mesmo o certo do errado.
e a deixo tremendo por mais dois segundos
Seu olhar é dramático,
Seu rosto é sutil e delicado, mas seus olhos vibram
Vibram rápido demais, e eu vou guardando na memória
A perfeição daquela cena ao contrário
No teatro.
Mas ela é tão dramática!
Ela bem sabe que isto não é sangue
É só tinta vermelha…
Mas chora, chora sua vida toda
Como se colocasse para fora
Toda a poesia dispensada nestes dias comuns
Quando a primeira lágrima escorre pelo seu rosto
Eu alcanço o pico mais alto do meu mundo
E me rendo à beleza da vida real
Seu choro é a poesia feita da minha tinta vermelha
Que troquei pelos seus olhos verdes, em pranto
E vaidosamente
Pelos seus aplausos no final.
-
Filed under: Uncategorized
Arcimboldo
A maçã que colho da árvore não deixa de ser dela,
E isso também não faz com que seja mais minha
Do que sempre fora.
Pois não sou mais que poucas dezenas de quilos de terra
Que não deixa de pertencer a heróis mortos
A monarcas, plebeus, filósofos e carrascos
Comidos por vermes, amados por qualquer coisa.
São causas dentro de causas.
Causas espalhando causas por aí.
Há tanta eletricidade nisso,
E nada se perde!
Como falar em desperdício,
Quando sei que a selva é tão linda
E tão minha quanto essa consciência animal?
E que a selva não precisa ter tantos nomes,
tantos detalhes, tanto orgulho.
Selva, país, Terra, Espaço
Gente, sangue de gente,
Consciente, inconsciente
Meu, seu, nosso.
Vida e felicidade.
Felicidade?
Fico feliz pela minha tristeza habitual
Fico feliz por conhecer e sonhar a felicidade
Pois talvez seja este o berço
daquela eletricidade dos bichos
Que provoca a reflexão infinita das coisas
Como um espelho na frente do outro
E o movimento das causas.
A felicidade não está na Terra,
A felicidade está nos bichos,
A felicidade não está no passado
A felicidade está por aí, dançando no vento
junto ao tempo e espaço,
junto aos passos de nossos sapatos
E quando deixar esta minha, estranhamente minha
consciência animal,
morrendo ou coisa assim,
Ser então,
maçã, montanha, gente morta,
Inspiração e felicidade como um presente
Que deixarei àqueles capazes de sentir.
-
Filed under: Uncategorized
Cama de pregos. Versos Úteis.
Pousa sobre minha cabeça,
Aquela outra, aquela velha, aquela miseravelmente minha
Poesia das coisas que não deviam nem queriam ser poesia
Como terra ruim, infértil, mas que surpreende quando verde se faz.
E assim, preciso de alguma coisa como papel,
que deve ser branco e que deve ser parte de um procedimento,
alheio ao que pede sua competência.
E fique sabendo que eu não quero jorrar palavras e lacunas.
Mas acontece que a cabeça dói, que a cama não conforta,
que a mente não repousa.
Mas como eu dizia agora há pouco,
tal coisa pousa sobre minha cabeça e eu não posso a chamar tristeza.
Tampouco felicidade.
Posso chamá-la inconveniência, ou corvo.
Pois tem vida, pois é preto, pois mete medo.
E eu me pergunto de onde veio tal desconforto no simples ato
Ato de ser quem sou, de pensar no que penso.
De ser parte de um mundo que encaixava como quebra cabeça.
E de repente, simplesmente, não faz sentido.
Se me perguntar se escrever o que escrevo me ajuda a encaixar o que é correto,
eu responderei que não sei sobre o correto, portanto não sei me corrigir.
As minhas palavras não servem como óculos
que consertam olhos ruins, não é isso.
Elas são simplesmente parte de um mecanismo
que uso para poder dormir tranqüilo.
E amanhã a rotina me responderá alguns porquês.
Filed under: Uncategorized
-
Suas Mortes, Seus Cabelos Verdes
-
Com os dedos tocando levemente seus lábios
Ela diz que as palavras são desnecessárias,
São incômodas e barram o vento frio
Que sopra o único som que faz sentido
Sente a noite em harmonia com seus arrepios
Não só pelo frio, mas pelo momento raro
Que parece ser o único a que estavam destinados
Quando surgiram do concreto como animais politizados
Animais eruditos, éticos e místicos
Sentados na grama estavam sentados no mundo
E todos os símbolos que conhecem dissolvem-se
E os indivíduos desvanecem,
a política, a cultura, a moral e o esoterismo
aos poucos se tornam coisa nenhuma.
E os animais ressurgem na lama como animais e nada mais
O cheiro da grama molhada não difere do cheiro dos cabelos dela
É tudo a mesma coisa
Tudo tem gosto de amor
Sublime, leve e verdadeiramente vivo
Os Eus finalmente estão mortos.
E as duas pessoas são plenamente
Tudo que existe.
Filed under: Uncategorized
É Tudo Tinta Vermelha
E a nuvem se foi, agora posso ver tudo que eu não sei:
Meu caminhar sereno, no frio, retorna em vontade e tudo move.
Confundo o tangível com o intangível e deixo pra lá.
Namoro os paradoxos, eles me amam e eu os amo igual.
Piso com confiança num mundo que pisa em mim com confiança.
Ambos sabemos o quão fingida é essa segurança.
Mas é que no escuro em meio a neblina, me protejo assim.
Passos firmes, passos retos, até o ocaso, quero só ver como é.
Penso no fim como meu gato brinca com o novelo de lã.
Não sei o porquê, mas sei que gosto.
Sentir meu diabo digladiar meu macaco.
A intuição aberrante e o instinto animal sempre saem no tapa.
Eu bato palmas e rio, como se não fosse comigo.
Como faríamos se a vida não fosse tão engraçada?
No caminho, gosto de notar as pistas do universo.
A pureza se manifestando na leveza das coisas pequenas.
Na espuma, na pluma, no sorriso de menina.
Brilhantes perpétuos, assentam infinitos instantes.
E o fazem por nada, não sabem das vitais perguntas que me respondem.
E assim, todos os passos que faço, as pegadas marcadas,
são traços de um pensante, que sente e transcende,
e que não quer se cobrir com os lençóis brancos.
Não me visto de fantasias tão vazias,
Os mortos-vivos nunca questionaram suas fomes,
nunca duvidaram de si mesmos, de seus olhos no espelho.
Descartes disse:
“Penso, logo existo”.
E os fantasmas continuam só existindo,
através dos olhos de terceiros.
-
Filed under: Uncategorized
-
De noite, a penumbra engole as luzes até a última gota ponto final - – Para um coração vazio, outro evento estético. Pois ele não acompanha a melodia dos loucos. Os sãos e salvos observam os efeitos práticos no gelado mundo dos fenômenos. - Bobagem! Se não percebe a noite, como vestígios de um sonho errante o que sobra? apenas cores mortas de uma ordem doente de correntes presas da raiz à lua minguante, e as pupilas dilatadas, vivem a espera do inevitável bote da serpente. - Como sabe. - O amor é o El Dorado dos presos a certezas e correntes “Existe, pero no he encontrado.” Desistam! O amor só existe quando a gente inventa! O amor é para os desatinados que criam a essência, já que a própria existência muito pouco oferece além dos absurdos e seus nomes - A ordem reza palavras com confiança e um sorriso cínico no canto da boca: “vida” “morte” “deus” “verdade” Ardilosa… Viciosa base que não nos deixa planar por ser mais forte que a mais pura das vontades. - Quando se admite, acolhe e cuida da confusão inerente à existência
O canto do sabiá é mais sincero e bonito Percebemos que por mais que a vida da gente Seja como faíscas no infinito Com criatividade podemos fazer fogo E quando o fogo se alastra nos campos de trigo Ele tem abrigo na História, E nunca irá se apagar. -








